quinta-feira, 30 de julho de 2009

Lar Algum

Outra de O Poeta morreu, este é um escrito que traz consigo um sentimento que tenho toda vez que brigo com alguém que amo. Essa gana de sair correndo pra algum lugar, qualquer lugar, desde que nos faça sentir em casa, sabendo que não haverá outro que não aquele do qual se fugiu. Esse desencontro interior, de se vagar por horas no deserto, então eis que se vê uma caverna, mas não há lugar para você lá, melhor ficar no frio da chuva, ou junte-se aos lobos famintos no calor do seu interior, ou então volte para onde veio, ou então cesse de existir.


Incubado em uma verdade solitária
Revisito tudo o que já foi pensado
Combato a sombra que me é contrária
E todo e cada sentimento não convidado

Sofro porque amo, e este é o meu lugar
Ter um amor lindo e estar sempre longe
E não saber nada além de amar
É o que me difere de um monge

Passam felicidades lá fora, na estrada
Daqui as vejo, com ar de euforia
Ao meu lado a depressão, bem acomodada
E feliz, pois não consegui o que queria

Vivo em uma casa onde não posso estar
Essa casa fica em lugar nenhum
Ainda hei de saber o que é um lar
Ainda descubro se um dia tive algum


Diorgi Giacomolli, 08 de Março de 2009.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Procurando Ouro

Retirado de Penseira, este poema guarda uma história um tanto engraçada, ao menos para mim e uma amiga. Eu estava na faculdade, era um fim de tarde, sopravam agradáveis ventos, destes que só temos na primavera, e eu estava na sala onde fazia os atendimentos da monitoria, para uma disciplina do curso de Letras. O último aluno havia acabado de sair, e eu havia passado as últimas quatro horas lecionando e pensando em escrever um poema no qual ficasse claro o lugar em que eu me encontro: "lá". Que, na verdade, é o meu aqui. Mas sinto como se os últimos trinta e dois meses houvessem passado sem que meu corpo tivesse junto de si minha alma. Minha ficou no lugar de onde meu corpo partiu. E agora meu corpo está "lá". E eu ainda não saí de onde eu quero tanto voltar.

Mas esta não é a história engraçada. Quando o último aluno saiu, e eu finalmente pude pôr no papel tudo o que tinha em mente, fiquei tão satisfeito com o que vi, que decidi recitá-lo para uma amiga. Esta cursa Biologia e, curiosamente, naquela mesma tarde, ela havia pesquisado sobre ácaros. Ei-los em meu poema:


I.
Eu fui pra lá, e lá fiquei,
naquele lugar de fazer lei
por qualquer trocado.
Mas eu não troco por nada, não nado,
não toco na desfigurada
cara do sábado onde desemboco.
Desfilo por esses bueiros
e, como em passeios faceiros,
sinto os gorjeios dos pássaros,
loucos de galanteios
pra cima dos ácaros de minha almofada.
Mas sou egoísta, não dou nada,
não peço, e confesso ao malabarista:
minha corda bamba foi arrebentada.
E aí tocou um samba,
bem na hora de ir embora,
pediram pra ficar, sorte eu não saber sambar,
azar eu estar nesse lugar...
Mas isso são outros quinhentos,
os inventos são outros, e os outros
não são a gente, que a gente
é só um bando vagando e procurando ouro.

II.
E ainda estou lá.
Decidi ficar, pensei no acolá,
mas não ia funcionar.
Fiquei lá mesmo, é o melhor lugar,
sendo que o silêncio me cegaria
e eu jamais chegaria a me consolar.
Abelhas batendo no vidro,
querendo sair, duvido que vão conseguir,
mas elas acreditam e insistem,
não se irritam nem desistem,
são capazes mesmo de atravessar.
Os cartazes dizem pra participar,
e o que fazes é ler e ignorar,
mas uma hora eu ainda chego aqui.
Já me cansei de tudo o que vi,
quero um mundo novo, conhecer outro povo,
cruzar meu nome sem me preocupar
com o sobrenome, que a essa altura
nem vai importar.
Quero uma lonjura, dessas de não enxergar,
cair de uma altura sem nem despencar,
lutar sem armadura,
na certeza de que não vão me machucar.
A beleza eu quero poder ver
sem sentir dor, nem precisar de amor, nem sofrer.
E de meu, só uma bagagem,
guardando histórias de viagem, e um violão,
pra fazer som com qualquer cidadão
que aparecer no caminho.
Não quero fazer ninho, somente bater asa,
e nada de casa! Eu não quero morar,
só quero vagar e mais vagar,
numa rapidez devagar, pois que viver não é o que faço.
É estupidez me limitar nesse espaço,
eu devia estar vivendo, e não só respirando,
só caminhando, comendo e dormindo.
Quero vagar, ir indo e mais indo,
devagar, quero conhecer o viver, sorrindo.


Diorgi Giacomolli, 24 de Outubro de 2008.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

A Invasão dos Tempos

Ao compôr esta obra, investida que me custou pouco mais de quinze minutos, muitos pensamentos me rondavam a cabeça, como moscas rondando carne pútrida. Era uma tarde friolenta em Canoas, eu estava na faculdade, tinha ido até lá para entregar um trabalho, a última atividade do semestre, e estava bem feliz por isso. Lembro que no dia eu andava na metade da leitura de Eugênia Grandet, e é interessante como o Balzac já falava coisas como "hoje em dia, o dinheiro é o único deus no qual as pessoas realmente têm fé", e isso em 1833. Bem, no fim das contas, nada disso tem a ver com o poema.


nós vivemos a invasão dos tempos
interferências tecnológicas no jeito de amar
nós tememos o que vem com os ventos
e que venham a pôr preço no ar

no metrô é cada um por si
e cada si contra o mundo inteiro
ora, não entendi,
diria o mosqueteiro

não sorria pra mim!
não me olhe assim!
você nem me conhece,
por que estás sendo gentil?
é cada um que me aparece!
o que vai ser do brasil?

ora, não seja tão político,
você pode simplesmente dizer que não vai...
mas eu vivo na polis, como não ser cínico?
êta cambada de filho sem pai!

amei a solidão
mas ela evoluiu
agora é vazio
chame involução
se preferir
se lhe servir
o chapéu
eu vou vestir
o céu

estas nossas tempestades vividas
estas nossas datas queridas
uma situação chamada problemas
imutável geração após geração
mudam os algarismos, os teoremas,
permanece a mesma equação

esta nulidade de afazers
estes amanheceres, estas cidades
estas derrubadas
estas quedas de avião
crianças enlatadas
para ter educação

não sei se procuro um amor
ou se protesto contra o senador
tanto faz, pode ser morena, ruiva, loira,
apenas uma que me ame e que me mereça
ah, quer saber? esqueça!
vou protestar contra a governadora

não sei se peço um impeachment
ou se vou pro video game jogar hitman
ou se vou pros eua de uma vez
é dose agüentar esse portuglês
diabo de estrangeirismo!
o que é isso, crise de identidade?
falta de otimismo?
complexo de inferioridade?

não sei se ser brasileiro é pessimismo,
ou se ser humano é fatalidade


Diorgi Giacomolli, 16 de Julho de 2009.

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Meu Amigo e Eu

Da série minúscula, este é um poema particularmente curioso. Ele narra uma conversa que tive com um amigo lá por final de abril deste ano. É claro que o poema possui alguns exageros artísticos, mas pode-se dizer que é bastante fiel ao fato, fora uma conversa bastante intrigante e interessante. E a curiosidade desta obra está no fato de ter sido o único poema que escrevi até hoje sobre uma conversa com um amigo. E mais: essa conversa foi a primeira que tive com esse amigo. Foi dali que saiu tal amizade.


nossa mente tem limites
é como uma área cercada
curioso é a ignorância
não poder ser limitada

foi um amigo que me disse
essa verdade sem igual
e nós rimos debilmente
desse mundo débil mental

ele disse que as pessoas
lhe dizem, agressivas,
que, em vez de coisas boas,
ele diz coisas depressivas

então eu lhe disse: meu amigo,
não permita esse absurdo,
diga a eles o que eu digo:
depressivo é o mundo!

e nós falamos sobre o belo
tempo de nossos avós
é mais um perdido elo
nesse nosso mundo atroz

nós ficamos pensando
nos humanos humanóides
andróides se mostrando
pra um mundo debilóide

falamos da realidade,
do amor, que é descartável
e sentimos uma vontade
de chorar incontrolável

então trocamos de assunto
e falamos da solidão
ninguém mais quer ficar junto
nesse mundo grosseirão

mundo onde doença é lucro
remédio sofre inflação
um dia o meu sepulcro
enfrentará super-lotação

mas ficamos bem contentes:
o mundo ainda tem chão
senão, onde dormiriam
os mendigos, sem colchão?

suspiramos imensamente
como forma de gratidão
então rimos mansamente
desse mundo mongolão


Diorgi Giacomolli, 05 de Maio de 2009.

O Poeta Morreu

Fiz este poema em março deste ano, para ser mais exato, no dia 14. A ideia que o concebeu é muito simples: a poesia em mim estava para ter o seu termo. Escrevo poemas desde os 18 anos de idade, mas, de certa forma, com a proximidade do fim do ano de 2008, comecei a sentir que não devia mais lidar com poesia, e sim, partir para a prosa de uma vez por todas. Digo assim pois sempre me aventurei pelos campos da prosa, ainda que sempre brevemente, com pequenos excertos de ensaios, mas nunca os levara adiante. Então, ao cabo dos dois meses finais do ano passado, sentindo que minha musa inspiradora de versos estava distante o suficiente, cheguei a pensar que O Poeta Morreu - título homônimo desta obra que lhes apresento agora - seria meu quinto e último livro de poemas. Mas me enganei. (Depois dele veio outro, e já estou no meio do sétimo.) E o fato de ter batizado este blog com tal nome é um reflexo da minha constante sensação diária de que estou a escrever o último poema...



O poeta morreu e não sabia mais o que fazer.
Escrevia, escrevia...
Mas aquilo não parecia escrever.
O poeta não sabia mais quem ser...
O poeta não entendia como isso podia acontecer,
Isso de se ter uma sangria
E não mais rejuvenescer...
O poeta pensou que enlouquecia...
Mas viu que o que sentia
Era pior do que enlouquecer:
Era a mais pura agonia!
Eram saudades de alegrias
Que ele não podia mais ter...
O poeta só queria viver!
Mas morreu, e foi de morte tardia:
Ele pensou que vivia, que existia,
Mas não sabia existir nem viver...
Ele pensou que amava, que sentia
Amor algum, mas viu que não havia,
Que só o que lhe cabia era esquecer...
E morreu. (Tinha que morrer.)
E que morte tão sadia!
Pra quem não vivia,
Foi uma morte de inveja se ter.


Diorgi Giacomolli, 14 de Março de 2009.